Banco Central reduz juros para 14%; a primeira queda em quatro anos

20 de outubro de 2016

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foto: reprodução
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu baixar os juros básicos da economia de 14,25% ao ano para 14% ao ano, um corte de 0,25 ponto percentual, na primeira redução da taxa Selic em quatro anos. A decisão foi anunciada pelo Banco Central no início da noite desta quarta-feira (19).
A decisão de cortar os juros confirma a expectativa do mercado financeiro. Os analistas, porém, estavam divididos quanto à intensidade da redução. Parte do mercado previa um corte para 14% ao ano, enquanto outros estimavam uma diminuição maior, de 0,5 ponto percentual, para 13,75% ao ano.
Para os economistas dos bancos, este será o primeiro de uma série de cortes nos juros básicos da economia. A estimativa é de que o Copom, que se reúne a cada 45 dias, continuará a reduzir a Selic até setembro de 2017, quando a taxa deverá estar, pelas previsões, em 11% ao ano.
O aumento dos juros, ou sua manutenção em um patamar elevado, é o principal mecanismo usado pelo BC para frear a inflação. Com esse procedimento, o BC encarece o crédito. O objetivo é reduzir o consumo no país para conter a inflação, que tem mostrado resistência.
Porém, os juros altos prejudicam a atividade economica e, consequentemente, inibem a geração de empregos. Quando o Banco Central julga que a inflação está compatível com as metas preestabelecidas, pode baixar os juros.
Sistema de metas
O Banco Central toma as decisões sobre a taxa de juros olhando para a frente e tendo como objetivo cumprir as metas de inflação previstas pelo sistema em vigor no país.

Para 2016, 2017 e 2018, a meta central é de inflação em 4,5%. Entretanto, o sistema prevê um piso e um teto, que é de inflação em 6,5%, em 2016, e em 6% em 2017 e 2018.
Isso significa que se a inflação deste ano, por exemplo, superar o alvo central de 4,5% mas ficar abaixo de 6,5%, o BC terá cumprido a meta. Entretanto, mercado estima um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ao redor de 7% para 2016.
As decisões da autoridade monetária sobre a taxa básica de juros surtem efeito pleno em seis a nove meses. Assim, o BC já está mirando, neste momento, a meta de inflação de 2017, e não a deste ano.
Explicações do Banco Central
Em comunicado, o Banco Central informou que a inflação recente “mostrou-se mais favorável que o esperado, em parte em decorrência da reversão da alta de preços de alimentos”.

Além disso, acrescentou que suas projeções recuaram desde o final de setembro. No cenário de referência, que pressupõe juros e câmbio estáveis, a previsão do BC para a inflação de 2017 já caiu para 4,3% – abaixo da meta central de 4,5% do ano que vem.
“No cenário de mercado [que considera as estimativas dos economistas dos bancos para câmbio e juros], a projeção para 2017 manteve-se praticamente inalterada em torno de 4,9% e a projeção para 2018 aumentou para aproximadamente 4,7% – ambas acima da meta para a inflação para esses dois anos-calendário, de 4,5%”, informou o BC.
Crise econômica X inflação
A reunião do Copom aconteceu em um ambiente de recessão na economia brasileira. Para este ano, a mais recente previsão do mercado financeiro é de um tombo de 3,2% no Produto Interno Bruto (PIB), após um recuo de 3,8% ano passado – o maior em 25 anos. Com o fraco nível de atividade, o desemprego e a inadimplência continuam aumentando.

Embora a queda recente do dólar contribua para impedir uma escalada maior dos preços, a forte deterioração das contas públicas atua em sentido contrário. Para este ano, a previsão é de um déficit de R$ 170,5 bilhões para as contas do governo e, para 2017, a previsão é de rombo de R$ 139 bilhões. Déficits maiores implicam em mais gastos públicos – que pressionam a inflação.
Os números mostram, porém, que o baixo nível de atividade começou a impactar mais fortemente a inflação nos últimos meses. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) – a inflação oficial do país – tem mostrado desaceleração. Em setembro, o indicador somou 0,08%, o menor nível para esse mês desde 1998.
Além disso, outros fatores também têm influenciado para baixo as expectativas de inflação para os próximos meses, como a aprovação, em primeiro turno na Câmara dos Deputados, da PEC 241, que institui um teto para os gastos públicos pelos próximos 20 anos – contribuindo para diminuir as pressões inflacionárias. A proposta ainda tem de passar pelo segundo turno na Câmara e pelo Senado Federal. Recentemente, a Petrobras anunciou também redução do preço da gasolina.
Juros reais e poupança
Mesmo com a redução de juros promovida pelo Banco Central nesta quarta-feira, o Brasil ainda permanece na liderança disparada do ranking mundial de juros reais (calculados com abatimento da inflação prevista para os próximos 12 meses), compilado pelo MoneYou e pela Infinity Asset Management.

Com os juros básicos em 14% ao ano, a taxa real soma 8,49% ao ano. Com isso, permanece bem acima do segundo colocado, que é a Rússia, com 4,27% ao ano, seguida pela Colômbia, com 3,61% ao ano. Nas 40 economias pesquisadas, a taxa média está negativa em 1,9% ao ano.
De acordo com cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), mesmo com a redução dos juros para 14% ao ano, os fundos de investimento continuam mais atrativos do que a poupança, ganhando em rendimento na maioria das situações.
A poupança continua atrativa somente para fundos com taxas de administração acima de 2,5% ao ano. Isso ocorre porque o rendimento dos fundos de renda fixa sobe junto com a Selic. Já o rendimento das cadernetas, quando a taxa de juros está acima de 8,5% ao ano, como atualmente, está limitado em 6,17% ao ano mais a variação da Taxa Referencial (TR).
Consequências do corte de juros
Segundo economistas, a queda dos juros poderá ajudar na recuperação da economia brasileira – que atravessa a maior recessão de sua história – por meio do aumento da confiança dos investidores e do recuo dos juros bancários. Além disso, poderá resultar em menos pressões de alta do dólar, contribuindo para impedir a volta da inflação no futuro. O corte também resultará em pagamento menor de juros pelo setor público.

De acordo com o diretor-executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, a queda da taxa Selic não tende a impactar, pelo menos em um primeiro momento, os juros bancários – que estão em patamar recorde. Mas, se as reduções persistirem no futuro, poderão pressionar para baixo os juros dos bancos.
Outra consequência do corte da taxa Selic pelo Banco Central é a redução nas despesas de juros da dívida pública. Atualmente, mais de R$ 600 bilhões em dívida em mercado estão atrelados à taxa básica de juros da economia. Com sua queda, recua também o pagamento de juros. A estimativa é de que um corte de 0,25 ponto percentual na Selic reduza essa despesa em R$ 1,5 bilhão em 12 meses.(O SUL)

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