Presidente Americano pode tornar Uruguai um novo paraíso fiscal

5 de fevereiro de 2021

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A eleição de Biden para a presidência dos Estados Unidos gerou muitas expectativas e balbúrdia pela América Latina. É preciso destacar, de antemão, o componente humanitário na vitória do candidato democrata.

A ampla participação, ainda mais em tempos de pandemia, e a grande votação em Biden demonstram o rechaço de parte significativa do eleitorado estadunidense ao conservadorismo de Trump. Entretanto, a principal novidade da vitória de Joe Biden será o retorno à dinâmica tradicional da política externa estadunidense.

A necessidade de reconstrução da legitimidade dos EUA como líder global, reforçará práticas renovadas, novas roupagens e algumas flexões. Assim, Biden representa o retorno do bloco identificado como “neoliberalismo progressista” (FRASER, 2017) à Casa Branca. Nesse contexto, a América Latina, de maneira geral, sofrerá os impactos e o Uruguai, especificamente, poderá ocupar um papel de destaque, sendo palco de importantes debates na região.

Para Nancy Fraser (2017), filósofa estadunidense, a perspectiva que descreve como neoliberalismo progressista é a expressão de uma

aliança  real  e  poderosa  de  dois  companheiros improváveis: por um lado, as principais correntes liberais dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo,  multiculturalismo,  ambientalismo  e  direitos LGBTQ); por outro lado, os setores mais dinâmicos, de alto nível “simbólico” e financeiro da economia dos EUA (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood). (FRASER, 2017, p. 46)

Essa aliança foi gestada ao longo dos governos de Barack Obama e teve sua expressão mais forte com a candidatura de Hillary Clinton, em 2016. Publicamente vinculada às finanças de Wall Street e à indústria da guerra, a candidata democrata apelou ao fato de que seria a primeira mulher presidenta dos EUA.

Esse fenômeno corresponde precisamente à necessidade de recuperar a imagem dos Estados Unidos no mundo, muito desgastada com a agressividade da política de George W. Bush e as guerras no Iraque e Afeganistão.

Com Obama, a política dos EUA ganhou cores especiais. Ganharam protagonismo na política externa estadunidense estratégias conhecidas como lawfare e soft power. Essas ferramentas compõem elementos importantes no que Domenico Losurdo caracterizou como revoluções coloridas ou golpes de novo tipo marcados por continuidades e descontinuidades da política estadunidense.

Assim, sem abrir mão dos velhos instrumentos, passou-se a priorizar a “mudança de regime imposto pela força, mas sem recorrer ao clássico golpe de estado militar” (LOSURDO, 2014). Casos mais evidentes desse método foram os golpes aplicados no Paraguai contra Lugo, no Brasil contra Dilma Rousseff e na retomada das relações diplomáticas com Cuba.

Diferente do porrete, a trama envolve a articulação entre distintos setores da sociedade (econômicos, midiáticos e sociais), tendo a pauta anti-corrupção como carro chefe, com o objetivo de gerar instabilidade social e política. Para o filósofo italiano, derruba-se um governo “como se o movimento fosse oriundo do seu interior, mas organizado e apoiado de fora do país” (LOSURDO, 2014).

Portanto, ao destacar sua disposição em retomar as políticas de Obama, é disso que Biden está falando. Conforme matéria publicada no jornal estadunidense The New York Times, “Los asesores de Biden dicen que buscarán revivir la campaña anticorrupción que a partir de 2014 provocó várias sacudidas políticas en las Américas, pero que se ha visto estancada en los últimos años.” (TIMES, 2020).

Além disso, Biden já declarou que pretende rearticular o bloco de países “democráticos” da região. Ou seja, podemos esperar a rearticulação da Aliança do Pacífico, alternativa encontrada pelos EUA após a derrota da ALCA, e buscar isolar Cuba, Bolívia e Venezuela. México e Argentina não devem ser declarados inimigos publicamente e serão dois países onde o lawfare deverá ser mais frequente.

Por outro lado, o Brasil de Bolsonaro, um dos grandes derrotados desse processo, deverá tornar-se alvo de Biden, que se valerá da polarização com o governo brasileiro como uma continuidade da luta contra Trump. Conjuntamente a isso, deve apoiar a construção de uma candidatura em maior sintonia com o projeto do Partido Democrata para 2022.

Entretanto, o contexto da pandemia e a contraposição a Trump agregam elementos específicos desse cenário. Se Trump é expressão do negacionismo, Biden defende a ciência. Contra o racismo, o machismo e a intolerância do primeiro, o segundo defende as pautas identitárias e políticas sociais. Sobretudo a retomada do Obama Care e a política de aumento do salário mínimo devem ocupar a agenda interna.

Isso tudo confere um verniz progressista ao papel dos EUA ao nível internacional e na sua relação com a América Latina, principalmente. Porém, conforme afirmado anteriormente, diante de uma política atípica impulsionada por Trump, Biden terá o papel de restabelecer a racionalidade e a normalidade na institucionalidade estadunidense. Ou seja, ainda que repaginado e atualizado em sua versão 4.0, teremos nosso imperialismo de volta.

Historicamente, a política externa dos Republicanos dirige maior atenção ao Oriente Médio, enquanto os Democratas olham com maior afinco para a América Latina. Vale lembrar que o golpe de 2016, assim como o de 1964, ocorreram durante governos Democratas: Obama agora, Kennedy antes e contaram com intensa participação dos EUA.

Além disso, a presença de uma mulher, latina, na vice-presidência do país e a centralidade da pauta dos imigrantes nos debates anuncia que o continente latino-americano ocupará um papel importante na política externa dos EUA.

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